CHABAD Chabad Brasil BRASIL
Cartas

Tirar o pensamento não é brigar com o pensamento

Igros Kodesh, vol. 16 · carta ה'תתנא (5851) · 17 de Marcheshvan, 5718 · Brooklyn

A quem cai em abatimento e não consegue estudar. Combater a coisa, mesmo para negá-la, já é ficar nela. E até onde se abre mão de si pelo outro.

Recebi sua carta do fim de Tishrei, na qual o senhor escreve que em certos casos cai de espírito muitíssimo, e fica quebrado e desfeito, e lhe é difícil estudar, ainda que se guarde de várias coisas explicadas nos livros a esse respeito.

Parece-me que já lhe escrevi que um dos pontos para consertar esse estado é a coisa de tirar o pensamento dali. E está explicado, e se entende também pelo bom senso simples, que tirar o pensamento não quer dizer guerrear contra a coisa, nem discutir com ela, nem mesmo para negá-la. Porque isso é justamente o contrário de tirar o pensamento.

O sentido é o simples. Tirar dali o pensamento por completo. Até do conserto daquilo, e até de pensar em como aquilo é ruim.

Mas como o pensamento está sempre andando, tirar o pensamento só é possível de um modo. Mergulhando o pensamento em coisas de outra ordem inteiramente. E melhor ainda se for coisa de Torá. Se um pouco de luz afasta muita escuridão, quanto mais muita luz, e ainda mais o estudo daquilo que é a luz dentro da Torá, a fonte da luz, que é a sua parte interior.

Quanto ao que escreve, que lhe é difícil participar de hitvaaduyot chassídicas porque não tem ouvido para o canto. Isso é como o dito de Chazal, quem comeu alho e o hálito exala, que coma alho de novo. Além de que a conclusão que o senhor tira, de que aquilo não age sobre o senhor em nada, não se sustenta. Porque é impossível. O homem é, em geral, alguém sobre quem se age, e ainda mais em hora de favor. E é conhecido o bilhete que desceu do Céu sobre a grandeza daquilo que uma hitvaadut realiza.

Quanto à sua pergunta, se a pessoa é obrigada a abrir mão do seu próprio espiritual para salvar o espiritual do outro. Já se conhece o dito de Rabi Akiva, veahavta lereachá kamocha, klal gadol baTorá. E há o que Chazal dizem sobre quem é o chassid tolo, e outros ditos que testemunham no mesmo sentido.

E o principal nisso é o que se sabe da explicação do versículo utsedaká teromem goy, que por meio disso o cérebro e o coração da pessoa se tornam límpidos mil vezes mais. E a tsedaká espiritual, que toca a alma, com certeza não é menor que a tsedaká material.

Entenda-se que nisso há limites. Isto é, assim como a pessoa é obrigada a ocupar-se do bem do próximo, um bochur de yeshivá não deve anular toda a ordem da yeshivá e ocupar-se apenas de tsedaká, material ou espiritual. Como em todas as coisas da nossa Torá, Torá de vida, é preciso achar o caminho do meio, conforme o Rambam explica longamente no começo das Hilchot Deot.

E como a pessoa é próxima demais de si mesma para julgar, o senhor deve expor a coisa em detalhe diante dos seus amigos, e que eles o orientem. E que seja da vontade de Hashem que em tudo isso o senhor traga boas notícias, tanto no que faz por si quanto no que faz pelo próximo.

Nota editorial. Tradução para o português a partir do texto hebraico publicado em Igros Kodesh, vol. 16, carta ה'תתנא (Kehot). O original pode ser conferido na Biblioteca Chabad Lubavitch. Escrita pela secretaria em nome do Rebe. Abreviaturas e referências foram abertas onde era preciso para a leitura. Não substitui o texto hebraico nem a consulta a um Rov em questões pessoais.