CHABAD Chabad Brasil BRASIL
Cartas

Uma frente contra ele, contra a família, e contra si mesma

Igros Kodesh, vol. 14 · carta ד'תתנא (4851) · 18 de Marcheshvan, 5717 · Brooklyn · A uma mulher em desavença com o noivo e a família dele

A uma mulher que resolveu ir ao beit din já decidida a se separar. Três observações, mandadas com pressa, antes das outras cartas da fila.

Em resposta à sua carta de 11 de Marcheshvan, na qual escreve como se desenrolaram as coisas no seu shiduch e como estão hoje as relações entre os dois, e que no meio da discussão ficou resolvido recorrer a um beit din superior, e termina dizendo que se encontra numa frente contra ele e contra a família inteira.

Entende-se que é difícil dar parecer com base nos argumentos de um lado só. Porque, quanto a cada um e a cada uma, mesmo o homem mais íntegro, vale a regra, adam karov etsel atsmo, o homem é parente de si mesmo. E já que resolveram recorrer a um beit din superior, e por certo a sua intenção é diante de rabinos com autoridade e experiência para orientar, haverá ali ocasião de expor os argumentos dos dois lados e de ouvir o parecer de gente que está acima das partes.

Mas o que me apresso a observar sobre a sua carta é o seguinte.

Primeiro. No que escreve, que se encontra numa frente contra ele e contra a família, há lugar para dizer que a frente é também contra si mesma. Pois a vida de família é a questão da vida, e todo passo apressado e errado tem consequências que atingem os dois lados, e muitas vezes atinge antes o lado que tomou esse caminho do que o outro lado. Entende-se que não é minha intenção dar parecer sobre a questão em si e sobre o modo de resolvê-la, e, como ficou dito, ouvi os argumentos de um lado apenas. É só para exprimir a minha preocupação, porque ao que parece a senhora se esforça por azedar as relações para que o esclarecimento e a solução venham o quanto antes. E nem sempre a pressa no esclarecimento de assuntos assim é boa e proveitosa.

Segundo, e talvez ainda mais essencial. No que escreve, que recorrem ao beit din a fim de se separarem, isto é, que só enxerga possível essa saída. E, como ficou dito, e por certo a senhora concorda com isso, um homem que está de fora pode julgar de modo muito mais objetivo do que os que estão dentro da coisa. Por isso não é acertado decidir de antemão que se recorre ao beit din com um alvo já fixado, sem perguntar a opinião do beit din sobre o próprio assunto.

Terceiro. O que me causou espanto na descrição das suas ações e da conduta que adotou. Apesar de ser religiosa, e de ter recebido chinuch religioso, e de a sua visão de mundo ser religiosa, ainda assim adotou uma conduta contrária a isso, com o alvo de romper por esse meio as relações entre os dois. Por certo é desnecessário explicar que a conduta conforme a orientação da nossa Torá, Torá de vida, não é assunto de comércio, para servir de meio de pressão. É um valor por si, e coisa fundamental nas relações entre o homem e o seu Criador e Condutor. E ajustar a conduta à orientação de Quem deu a Torá atrai as brochot de Quem deu a Torá sobre aquele que assim se conduz. E entre essas brochot está também o bom senso, o entendimento reto, a avaliação certa da situação em que a pessoa se encontra, e as decisões que convêm à sua verdadeira felicidade.

É como no texto da tefilá que se diz três vezes ao dia, em que o pedido das necessidades do homem começa com chonenu meitchá chochmá biná vadaat. E do sim se ouve o não. O enfraquecimento dos laços entre o homem e o seu Criador, por uma conduta contrária, atrapalha tudo isso, e lhe tira uma coisa essencial e vital em todos os tempos, e ainda mais num período em que quer resolver questões complicadas e de princípio.

Mando esta minha carta com pressa, antes de responder a cartas recebidas antes da sua, na esperança de que estas linhas, poucas em quantidade diante da importância do assunto, a despertem para pensar mais uma vez conforme os três pontos que ficaram ditos, e para mudar o seu modo de ver, e principalmente a sua conduta na prática, em consonância com a orientação da nossa Torá, Torá de vida. E me será agradável receber dela a confirmação desta minha esperança.

Com brochá de que Hashem yitbarach, que cuida com hashgachá pratit de cada um e de cada uma, a conduza pelo caminho que é bom diante dela, no bem verdadeiro.

Em nome do Rebe, o secretário.

Nota editorial. Tradução para o português a partir do texto hebraico publicado em Igros Kodesh, vol. 14, carta ד'תתנא (Kehot). O original pode ser conferido na Biblioteca Chabad Lubavitch. Abreviaturas e referências foram abertas onde era preciso para a leitura. Não substitui o texto hebraico nem a consulta a um Rov em questões pessoais.