CHABAD Chabad Brasil BRASIL
Cartas

A quem não sente vitalidade nas coisas de kedushá

Igros Kodesh, vol. 14 · carta ה'רצא (5291) · 19 de Adar II, 5717 · Brooklyn

Um soldado criado em casa religiosa escreve que não sente nada, e que pensamentos contrários lhe passam pela cabeça. Quem atrapalha mais é atrapalhado mais.

Recebi sua carta, que demorou um pouco no caminho, na qual o senhor escreve que é filho de pais observantes e tementes, e que recebeu o chinuch correspondente. E acrescenta um resumo do que passou consigo depois disso, e se queixa de que não sente vitalidade nas coisas de kedushá, e de que pensamentos contrários lhe passam pelo pensamento.

Certamente, e ainda mais estando o senhor há tempo no exército, não é preciso chamar a atenção para a ordem que reina e se vê na criação, apesar de às vezes parecer outra coisa aos olhos de carne. Com exceção daquele canto da criação onde estão os judeus, aos quais foi dada escolha livre, conforme está escrito, vê, coloquei diante de ti hoje a vida e o bem, e escolherás a vida.

E isso também é bondade do Criador, que quis que o homem visse a sua própria natureza, o que ele é, e que é bom na essência e por dentro. E mesmo que os golpes do tempo cubram esse interior com uma camada contrária, isso não passa de coisa externa, que vem ao homem para que ele a retire com força própria e com esforço. É por isso que a brochá e a influência de Cima aumentam, e não só isso, mas passam a vir por inteiro. Como se diz, não há prazer completo no pão da vergonha, ao contrário daquilo em que a pessoa trabalhou e se esforçou.

Do que foi dito entende-se que não há parte mais bela na vida do que aquela em que a hashgachá de Cima dá a possibilidade não apenas de escolher a vida no seu próprio mundo e na sua própria vida, mas também de influir sobre um certo círculo e inclinar essas pessoas para o bem, de modo que também elas escolham a vida verdadeira e o bem verdadeiro.

Daí se entende também que o yetzer hará e o lado de lá guerreiam e atrapalham mais aquele que influi sobre outros do que atrapalham um homem particular, que apenas dentro das suas quatro amot acende a luz da sua alma para iluminar a sua parte, e só.

E disso se entende, com toda a simplicidade, que não deve cair o coração daquele que é atrapalhado assim. Porque isso é sinal de que ele tem de agir mais do que uma pessoa comum, e por isso o yetzer guerreia e se levanta contra ele com mais força. Como diz o dito conhecido de Chazal, quem é maior que o companheiro, o seu yetzer é maior que o dele.

E quanto à vida religiosa dentro do exército. Os militares estão num enquadramento próprio, arrancados de casa e do seu ambiente de costume, e habituados a aceitar o jugo durante a maior parte do dia e da noite, a pôr o fazer antes do ouvir. E isso os prepara ainda melhor para a conduta do povo de Israel ao receber a nossa Torá e cumprir as suas mitzvot, cujo fundamento é justamente a aceitação do jugo, naasse e depois nishmá.

E ainda que em vários pontos, ao contrário, guardar Torá e mitzvot ali seja mais difícil, essas dificuldades, como foi dito acima, devem despertar força acrescida em cada um dos que estão no exército, e força muitas vezes maior naqueles que estão acima deles no que toca às coisas de religião. E não há coisa que resista diante da vontade.

Tenho esperança de que o senhor tenha horários fixos de estudo da Torá também para si mesmo, além do estudo com aqueles sobre quem influi, e que nesses horários haja também estudo de Chassidus. Certamente os jovens de anash que estão à sua volta o ajudarão nisso em tudo o que for preciso, se o senhor entrar em contato com eles.

Esperando boas notícias em tudo o que foi dito.

Nota editorial. Tradução para o português a partir do texto hebraico publicado em Igros Kodesh, vol. 14, carta ה'רצא (Kehot). O original pode ser conferido na Biblioteca Chabad Lubavitch. Abreviaturas e referências foram abertas onde era preciso para a leitura. Não substitui o texto hebraico nem a consulta a um Rov em questões pessoais.